terça-feira, 19 de agosto de 2008

21 ANOS SEM ASFALTO

21 ANOS SEM ASFALTO
para Lauro Medeiros



Se me perguntarem do que mais sinto falta, é do cheiro da chuva chegando. De úmido, de terra molhada que aumentava, soprando junto com o vento.

Da rua eu tirei a primeira terrinha para fazer minhas comidinhas, que partilhava com as bonecas. Sempre entendi que a lama podia ser modelada, mesmo como bolinhos e papinhas das panelinhas, nas brincadeiras de casinha.

A chuva era uma alegria; lá íamos eu e os amiguinhos andar pelo meio das enxurradas, descalços, sem medo de nada, a não ser cair dentro do bueiro, e sumir.

Esse medo era constante, de tirar o sono. Sempre ouvia a história de crianças que, em dias de chuva, escorregavam e sumiam pelos bueiros. Do caminho da escola eu sabia de cor a localização deles. E quando eu me esquecia e quase caía?

No começo da noite, depois da chuva ou durante ela, começavam a aparecer os sapos. Os girinos. As pererecas. Animais com quem convivia muito na rua. Tínhamos o mesmo habitat.

Nas três raras vezes em que estivemos no laboratório da escola, qual era o animal que dissecávamos? Ele mesmo: o sapo. Tamanha a fartura, a facilidade de apanhá-lo.

Por isso adoro fábulas que têm o sapo como personagens. Uma princesa, que ao caminhar no campo encontra sapos, é totalmente aceitável no meu imaginário.

A chuva estava presente mesmo não chovendo, pois deixava suas marcas e conseqüências sempre. Eu morava no alto, e a água ia abrindo sulcos e fendas pela rua. Nos dias secos, um transtorno, quando se caía, escorregava, desviava, pulava e caminhava nelas. Nos dias de chuva caminhava-se dentro dos sulcos, junto com as enxurradas, invariavelmente. Descalça, de chinelo, ou com o sapato da escola mesmo.

Falo também do mato que invadia as ruas, fazendo-as mais fininhas, irem afunilando mais. Quase trilhas. O mato crescia mais depois das chuvas, assim como dento das casas, nos jardins e falhas do cimento do quintal. Ervas cresciam também.

Nos tempos de seca, de estiagem, era um pó só. No fim do dia as roupas ficavam com o tom da terra; aliás, uma cor linda. Um cor-de-rosa clarinho e brilhante. A pele da gente reluzia, principalmente nas noites de lua cheia, quando ficávamos até tarde na rua brincando.

Tudo me faz celebrar a chuva. A grande benção do céu.

Celebro a chuva e lamento o aborrecimento das pessoas da cidade quando ela chega. Tudo deveria ficar bom quando chove...

Então, a chuva teve tudo a ver com a rua. De terra.

Com aquela terra brilhante havia muitas pedrinhas. Isso me causou dificuldades desde quando aprendi a andar. Por causa de tantas pedrinhas não conseguia manter o equilíbrio, vivia escorregando e caindo. Tenho provas disso: em uma queda, arranquei um pedaço de pele significativo do joelho, e tenho uma cicatriz notável, profunda e bem diferente da pele. Ao cair eu me arrastei por centímetros e chorei muito porque doeu.

Escorregar na terra era constante. Os solados plásticos e duros das congas azul-marinho proporcionavam um freqüente deslize. Os solados sempre manchados de lama, que fazia a gente esquecer o que era o branco das coisas. Muitos sapatos meus ficaram manchados de lama por vários anos. Ao circular por lugares mais centrais, as pessoas viviam perguntando onde morava, de onde vinha. Vivia com vergonha disso, mas, depois nem ligava. Cheguei a ter orgulho de carregar manchas de lama nos tênis. Uma bobagem. Ter dificuldades é motivo de orgulho?

Lembro-me, na adolescência, da amiga Inês, que morava um pouco mais no alto do que eu. Depois de a família perder tudo, foi morar no Jardim Brasília. Ela nunca se conformou. Nos dias de chuva, ia para a avenida, no ponto de ônibus, com dois saquinhos plásticos no pé, em volta dos sapatos, para não se sujar de lama. Pouco adiantava, pois vivia espirrando lama na roupa, nem que fossem uns pinguinhos. Sempre levávamos a terra da rua com a gente. Sempre viam terra na gente.

Rua de terra e muitos terrenos com mato. O misterioso mato, tão presente em histórias de viajantes. Tão verde e cheiroso. Dali saíam muitas coisas, muitos bichos. Ratos, cobras, baratas, cupins, formigas, grilos, louva-a-deus, borboletas, tatuzinho-bola, que invadiam as ruas e não tinham vez junto à crueldade das crianças, das pessoas que marcavam ali seu território, sua passagem.

Os carros passavam tão raramente e a rua era lugar de gente. Todo mundo andava no meio dela, com jeito de estar percorrendo um caminho... Ruas compridas, olhares perdidos em pensamentos na caminhada.
Crianças passavam a caminho da escola, centenas. Mas durante todo o dia se revezavam na ocupação da rua e ficavam horas ali brincando.
Nas férias era a tomada total da rua. Gritos de felicidade, barulhos de brincadeiras e exaltações. Toque de recolher eram o grito da mãe chamando para o banho, a janta ou a chegada do pai do trabalho.

Tínhamos alguns medos da rua: dos raios em dias de chuva, de bombinhas, de enroscar pipas nos fios, de tarados que atacavam mulheres e meninas. Das brigas, quando uma turma ou integrante de outro bairro invadiam ou passavam pelo nosso. E vice-versa. Eu nunca entendi bem por que existia essa regra. Da polícia, quando, à noite, ficávamos dentro de casa morrendo de medo ouvindo as veraneios ou camburões da Rota deslizando com motor desligado, faróis apagados, nos causando pavor.

Também não tínhamos medo: queimada, esconde-esconde, pega-pega, cabo-de-guerra, brincadeira de roda, vivo-ou-morto, passa-anel. Às vezes, durante a tarde, deitávamos na rua e ficávamos olhando as nuvens do céu e vendo as mais diversas formas. Conforme o vento, mudavam as figuras. E todos milagrosamente viam juntos, imaginavam juntos. O exercício se complicava quando o vento era veloz e a imaginação tinha que ser rápida para dar conta do movimento. Estaria aí a primeira noção de que tudo muda?

Pulamos muita corda. Tenho certeza de que minhas pernas engrossaram de tanto brincar de pular corda. A corda era sempre minha e de meus irmãos, doada e sempre reposta pelo meu pai. Ele nunca me deu uma bicicleta, mas me deu esse instrumento de muita satisfação.

“Beijo, Abraço ou Aperto de Mão”. Por causa da brincadeira, fiquei noiva aos oito anos de idade. O anel era daqueles que vinham grudados no chiclete Ping-Pong, e o meu tinha uma pedra de acrílico vermelha. Exibia-o orgulhosa, prova de meu compromisso.

Soube de menstruação, sexo, namoro e beijo com amigas da rua. Algumas coisas me chocaram, outras me deram vontade de fazer. Treinava beijar em casa, no espelho do guarda-roupa da minha mãe. Um beijo frio, no vidro.Tão diferente do meu primeiro beijo, quente, que não teve trilha sonora, como a das novelas da TV. Aliás, o silêncio estonteante da entrega. Os pés fincados na terra da rua, o ventre quente e a cabeça flutuando. Bem no meio da rua.

Depois desse beijo, vieram outros, de outros, na rua.

Crescendo, também cresceram meu olhar, minha mente e meu desejo de beijar outras bocas, uma grande vontade de vida. Em outras ruas.

De ganhar novas ruas, até avenidas. Estradas?! A minha rua ficou pequena, com pouco espaço para tudo isso.

A rua mudava, ao mesmo tempo em que eu mudava. Primeiramente, a iluminação de poste, que deu grande incrementada às brincadeiras e depois aos namoros. Depois, as grandes tubulações e buracos: a água encanada! (morria de medo de cair no poço do quintal...). Finalmente o asfalto, que selou uma nova era: a de que eu não pertencia mais àquelas ruas.

Rosa Maria Falzoni
Natural do Jardim Brasília
Zona Leste - São Paulo - Capital

O menino sem imaginação no Teatro Paulo Eiró


Programação da Trópis

Extra: sábado 23 de Agosto
21 h ENCONTRO DE COMPOSITORES • show de lançamento do CD
Presença de GUNNAR VARGAS (organizador) • CODNOME SHIL • BUNECA • CLAUDIO LOPES • DAN! • DÊSSA E SANDRO LIMA • HUGUERA • JUNIOR SANTOS • NÚCLEO • SERGINHO POETA
No Centro Cultural Monte Azul • Av.Thomás de Souza 552 • f. 5851-5370 • entrada franca

Domingo 24 de Agosto
17 h ENSAIO ABERTO com TORÓ DE PARPITE
uma mistura de sarau com aula-de-todos-para-todos: compartilhe suas experiências
ou tentativas em artes (inclusive humor!) e troque idéias e sugestões com todo mundo
sobre as apresentações de todo mundo!

18:30 Jorgim Duporquê entrevista o Prof. Ditu Dumpoko
UM MUNDO MAIS JUSTO: EXISTE CHANCE ?
O que dizem as descobertas recentes sobre o cérebro, e a Filosofia Convivial
com JORGE LUCAS MAIA, RALF RICKLI e participação aberta a todos os presentes

Domingo 31 de Agosto
Abrindo a série Domingos LesGayS - sempre no último de cada mês
16 h Chá, papo & escolha de um filme:
- Kinsey, vamos falar de sexo (EUA 2006) - ou:
- Nossos filhos (EUA 1990) - ou:
- Todas as cores do amor (Irlanda 2003)

18:30 Bate-papo aberto
Há interesse em discutir diversidade sexual (entre outras) nos bairros?

Domingo 07 de Setembro
Aguarde o programa da comemoração dos
10 anos de oficialização da Associação Trópis
( 16 anos de atividade ! )





BIBLIOTECA TRÓPIS
Aberta no horário dos eventos ou com hora marcada pelo e-mail comunic@tropis.org ou celular 11 8552-4506
atrás do Colégio Renato Braga • Ônibus do Term. João Dias (metrô Giovanni Gronchi l.lilás): Jardim Capelinha

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Projeto Calendário Cultural Alternativo


Centro Cultural Monte Azul - Programação de Agosto 2008

Programação de Agosto 2008

Mês da Cultura Popular

Ecos de uma Terra Sagrada que acolhe gente do mundo inteiro
Ecos de violas, sanfonas e tambus que vieram de longe, e se uniram aos cantos,
ritos e ritmos dessa Terra para encantar e amenizar as dores de parto de um Povo Novo.

16/08/2008 - sábado, às 20:00 hs. Grooverados
Suas musicas misturam diversos estilos e são arranjados por todos os integrantes (quarteto), mostrando a soma das habilidades e versatilidades de cada componente. O resultado chama-se Rock-Groove.

19/08/2008 - terça-feira das 14:00 às 17:00 para jovens e das 18:00 às 21:00 para educadores e outros interessados.
Workshop “Filhos desta Terra” com Tatiana Zalla e as companhias Encantoria e Cia. Duberrô.
A proposta é: baseado no filme de Darcy Ribeiro “O Povo Brasileiro”e na pesquisa do grupo proporcionar uma vivencia e reflexão à respeito das raízes culturais da nossa região (São Paulo caipira). Veja poesia acima. Com o grupo de educadores será abordado a importância pedagógica deste tipo de trabalho.

23/08/2008 - sabado às 21:00 hs Encontro de Compositores • Show de Lançamento do Cd
Realizado por Gunnar Vargas e Convidados pelo Programa Vai 2007-08

24/08/2008 - domingo às 16:30 hs
“Interpretando o Sol” com O Bando do Pé Rapado
É um grupo de jovens do Parque Santo Antonio inserido no “Projeto Vocação de Musica” que mostrará seu trabalho .

29/08/2008 – sexta-feira às19:00 hs no Céu Casa Blanca:
Ecos da Paulistânia com as companhias Encantoria e Cia. Duberrô.
É uma apresentação musical inspirada em historias sobre a formação da Paulistânia Caipira. (Veja poesia encima e workshop do dia 19/08).

29, 30 e 31 /08/2008
III Encontro de Artes Waldorf
Palestras e Oficinas
É uma oportunidade de conhecer as bases teóricas do ensino de artes nas escolas Waldorf e ter vivencias praticas em 10 oficinas divididas conforme as faixas etárias (setênios) das crianças e adolescentes.

Maiores informações e inscrições (até dia 25.08.):
encontrodearteswaldorf@gmail.com

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Show de Lançamento CD Encontro de Compositores




Show de Lançamento do CD do Encontro de Compositores

Sábado dia 23 de agosto às 21h


Com os compositores e intérpretes do CD + show de encerramento com a banda Núcleo!


No Centro Cultural Monte Azul

Av. Tomás de Souza, 552

Próximo Terminal João Dias


para ouvir 2 músicas do cd entre no:

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Biblioteca Trópis - DOMINGO-FERA





Domingo 10 de Agosto



17 h Ensaio aberto: venha inventar conosco o novo SARARAU DA TRÓPIS... a cultura de bom humor


18 h Jorgim Duporquê entrevista o Prof. Ditu Dumpoko


Quais são mesmo os povos em jogo no tabuleiro do mundo?


Prévia da série Povo Brasil: para a gente se entender


20 h No caso de ainda haver gás... 1 pouco + de SARARAU ...


Domingo 17 de Agosto


16 h Filme O HOMEM QUE VIROU SUCO


clássico do cinema brasileiro realizado em 1980 por João Batista de Andrade, candidato a vice-prefeito na chapa Soninha (ver abaixo)


18 h Bate-papo com SONINHA • ex-MTV, candidata a prefeita pelo PPS
A Associação Trópis não necessariamente apóia os políticos que recebe para debates na sua Biblioteca. O objetivo é apenas oferecer um espaço de encontro entre a população local e pessoas que se propõem a representá-la


20 h Um pouco de SARARAU ...


Sábado 23 de Agosto - extra


21 h ENCONTRO DE COMPOSITORES •


show de lançamento do CD realizado por Gunnar Vargas e convidados pelo Programa VAI 2007-08
No Centro Cultural Monte Azul •


Av.Thomás de Souza 552 • ) 5851-5370

aguarde a programação comemorativa dos 10 anos de oficialização da Associação Trópis noDomingo 07 de Setembro !




Aberta no horário dos eventos ou com hora marcada pelo e-mail comunic@tropis.org ou celular 11 8552-4506 atrás do Colégio Renato Braga • Ônibus do Term. João Dias (metrô Giovanni Gronchi l.lilás): Jardim Capelinha