sexta-feira, 22 de agosto de 2008

CONVITE - EDIÇÕES TORÓ NO CINE E NA RÁDIO, NA BIENAL, NA VERSAÇÃO E NO DEBATE


Na instiga e afins de reflexões e estéticas fertilizantes, com a satisfação salgada de suor, Edições Toró se manifesta e convida pra colar com nossas presenças em vídeo e rádio, em livro, versação e debate.
Quilombolas letras riscadas nos tropicões dos ônibus e nos giros da África paulistana. Doces sonhos de revide necessário, trançando estrelas milenares e estórias urgentes.
Vem brasear com a gente na partilha de encher mais essa laje e morar na intenção que agasalha, na intuição que se espalha.
Quais são as ervas que a gente pode colher no quintal da literatura? Pra ontem e pra depois de amanhã? Qual que é a calma, o dendê, o raio que se desata com a leitura e a escrita? Pra que literatura das beiras? Pra que existir na saúde e no 220 das páginas e recitais? Vem com nóis que a gente tá longe de descobrir, mas tá tentando. Com a palavra, peça nossa da alma, elementar. Com seus labirintos, chamegos, varandas e crenças.
Invadindo sossegados sonhos de academia e gabinete, desempelotando esse mingau há tanto tempo servido na Casa Grande, mas atiçado, mulecado e chorado em volta de nossas fogueiras.
Salve a guerrerage de bom coração, ligeira, criança e engenheira.
Salve, salve. Chega com a gente.
CINEMA – FESTIVAL INTERNACIONAL DE CURTAS-METRAGENS DE SÃO PAULO -
“Vaguei os livros, me sujei com a merda toda” – Edições Toró
Aborda os estereótipos e a ausência gritante de autores e personagens negros na literatura, que fomentam no estudante preto profundo desgosto pelos livros; Toca a escrita de matriz afro, brasileira e mundial; O HipHop e sua trança com as páginas pretas paulistanas; A atual literatura da ladeira, que na ginga e frutifica pelas periferias de São Paulo hoje.
Sessão Carta 3, acompanhado de “Panteras Negras”(1968), de Agnes Varda.
*Sábado 23/08 - 22h, no Cine Unibanco Arteplex, sala 5.
R. Frei Caneca, 569, 3º piso, Cerqueira César
* Segunda 25/08 - 22h, na Cinemateca (sessão especial + apresentação do recital “ Versos Pretos: poesia, berimbau e pandeiro”).
Largo Senador Raul Cardoso, 207, Vila Clementino, próximo ao metrô Vila Mariana
* Terça 26/08 - 17h – no Cine Olido.
Av. São João, 473 - República - Centro
* Quarta 27/08 - 11h – na FAAP (sessão especial + debate).
Rua Alagoas, 903 - Higienópolis.
LIVROS – BIENAL DO LIVRO/ANHEMBI
* Sábado 23/08
-às 13 horas: Debate no Salão de Idéias, com Sérgio Vaz, Alessandro Buzo, Allan da Rosa e Sacolinha. Mediação do jornalista Chico Pìnheiro.
-às 16 horas: Lançamento de “Da Cabula”-(dramaturgia), no estande da Global Editora
-às 19 horas: Lançamento de “Zagaia”-(infanto-juvenil), no estande da Editora DCL
RÁDIO
Programa “Nas Ruas da Literatura”.
Rádio USP FM - freqüência 93,7
Todos os sábados e domingos, das 11hs às 12hs (antes do clássico “O samba pede passagem”, de Moisés da Rocha), de agosto a outubro/2006
Participação especial: Elis e Maria Tereza
Série ganhadora do PAC/2006 da Secretaria Estadual de Cultura de SP. Prêmio “Programas de áudio para promoção da literatura”.
Traz biografias, poesia e prosa de 24 escritores africanos, sul-americanos, antilhanos, mais autores negros e nordestinos do Brasil. Os textos caminham pela fronteira entre a escrita e a oralidade, mesclados a ritmos e melodias, instrumentos e harmonias, próprias de seus países, regiões e quebradas. Destacam-se dois programas que não abordam autores, mas estórias ancestrais comunitárias: “Contos populares de Angola” e “Mitos indígenas de criação do mundo”.
* 30/08 - Plínio Marcos e Gioconda Belli (Nicarágua)
* 31/08 - Carolina de Jesus e Mia Couto (Moçambique)
* 06/09 - Patativa do Assaré e Ana Paula Tavares (Angola)
* 07/09 - Mário Benedetti (Uruguai) e Mitos indígenas de criação do mundo
* 13/09 - Solano Trindade e Contos populares de Angola
* 14/09 - Noêmia de Souza (Moçambique) e Eduardo Galeano (Uruguai)

ENCONTROS E DEBATES
* Quinta 28/08- às 19 horas
Faculdade de Direito da USP, no Largo São Francisco
Tema : “Políticas Públicas - Cultura e Educação”
Com Nabil Bonduki, Allan da Rosa, Luís Claúdio ( Casa de Cultura M´Boi Mirim & Sacolão das Artes/Parque Santo Antônio) e representante do Ministério da Cultura ---------------
* Sábado 30/08- às 12 horas
No Centro Cultural Suburbano Convicto
“Encontro com o autor”, dialogando com Alessandro Buzo e a comunidade do Itaim Paulista. Rua Nogueira Viotti, 56. Final da lotação “Itaim Paulista x Metrô Arthur Alvim”. Fone: (11) 6569-9151.
CINEMA
E chegue também pra conferir o lançamento do documentário “Povo lindo, povo inteligente! – o Sarau da Cooperifa”. Trabalho produzido por Sérgio Gagliardi e Maurício Falcão, da DGT Filmes.
* Segunda 01/09 – às 21 horas. No Cinesesc. Rua Augusta, 2075
* Quarta 03/09 – às 21 horas. No Sarau da Cooperifa. Onde mora o tição, a ciência, o sereno e a gana da Poesia.Rua Bartolomeu dos Santos, 797, Chácara Santana - 5891-7403

Videoteca Popular no CEDECA Interlagos



Videoteca Popular na zona sul, oferecendo empréstimos gratuitos de filmes independentes para a comunidade.

Quem tiver trabalhos independentes e quiser doar ou enviar uma cópia entre em contato conosco.

Todos estão convidados a conhecer o projeto


Rua Nossa Senhora do Nazaré, 51Rio Bonito - no espaço Cedeca Interlagos de terça a sexta-feira.Informações: ncanarede@gmail.comVisitem o nosso blog: http://www.ncanarede.blogspot.com/

Sarau Eclético no CCM do Grajaú

OFICINA DE CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS
Projeto ERA UMA VEZ...O MUNDO
Mediadora: Letícia Coelho Gomes (professora e arte-educadora)
Dias: 27/08 e 03/09 (4ªf.) – das 8hs às 12hs06/08 – 14hs às 18hs (finalização da oficina com Sarau de poesias e outras artes)
Local: Centro de Cidadania da Mulher – CCM Inscrições gratuitas – vagas limitadas
Rua Professor Oscar Barreto Filho, 350 – Parque América/ Grajaú Telefone: 5925-5429

2 Meses e 23 Minutos no Festival de Curtas


2 Meses e 23 Minutos no Festival de Curtas

Sexta 22 - às 18h na Cinemateca, sala Petrobras
Sábado 23 - às 20h no Centro Cultural da Juventude + debate com Rogério Pixote, Fábio Ranzani, Rica Saito e Helena.
Segunda 25 - às 17h no Cine Olido + debate com Rogério Pixote, Fábio Ranzani, CANIL e Júlio Wainer.
terça 26 - às 18h no Unibanco Arteplex, sala 5 - Frei Caneca

Mais informações e programação completa em:
http://www.kinoforum.org.br/curtas/2008/programa.php?c=206&idioma=1

O Cordel do Coronel no Parque Guarapiranga


terça-feira, 19 de agosto de 2008

21 ANOS SEM ASFALTO

21 ANOS SEM ASFALTO
para Lauro Medeiros



Se me perguntarem do que mais sinto falta, é do cheiro da chuva chegando. De úmido, de terra molhada que aumentava, soprando junto com o vento.

Da rua eu tirei a primeira terrinha para fazer minhas comidinhas, que partilhava com as bonecas. Sempre entendi que a lama podia ser modelada, mesmo como bolinhos e papinhas das panelinhas, nas brincadeiras de casinha.

A chuva era uma alegria; lá íamos eu e os amiguinhos andar pelo meio das enxurradas, descalços, sem medo de nada, a não ser cair dentro do bueiro, e sumir.

Esse medo era constante, de tirar o sono. Sempre ouvia a história de crianças que, em dias de chuva, escorregavam e sumiam pelos bueiros. Do caminho da escola eu sabia de cor a localização deles. E quando eu me esquecia e quase caía?

No começo da noite, depois da chuva ou durante ela, começavam a aparecer os sapos. Os girinos. As pererecas. Animais com quem convivia muito na rua. Tínhamos o mesmo habitat.

Nas três raras vezes em que estivemos no laboratório da escola, qual era o animal que dissecávamos? Ele mesmo: o sapo. Tamanha a fartura, a facilidade de apanhá-lo.

Por isso adoro fábulas que têm o sapo como personagens. Uma princesa, que ao caminhar no campo encontra sapos, é totalmente aceitável no meu imaginário.

A chuva estava presente mesmo não chovendo, pois deixava suas marcas e conseqüências sempre. Eu morava no alto, e a água ia abrindo sulcos e fendas pela rua. Nos dias secos, um transtorno, quando se caía, escorregava, desviava, pulava e caminhava nelas. Nos dias de chuva caminhava-se dentro dos sulcos, junto com as enxurradas, invariavelmente. Descalça, de chinelo, ou com o sapato da escola mesmo.

Falo também do mato que invadia as ruas, fazendo-as mais fininhas, irem afunilando mais. Quase trilhas. O mato crescia mais depois das chuvas, assim como dento das casas, nos jardins e falhas do cimento do quintal. Ervas cresciam também.

Nos tempos de seca, de estiagem, era um pó só. No fim do dia as roupas ficavam com o tom da terra; aliás, uma cor linda. Um cor-de-rosa clarinho e brilhante. A pele da gente reluzia, principalmente nas noites de lua cheia, quando ficávamos até tarde na rua brincando.

Tudo me faz celebrar a chuva. A grande benção do céu.

Celebro a chuva e lamento o aborrecimento das pessoas da cidade quando ela chega. Tudo deveria ficar bom quando chove...

Então, a chuva teve tudo a ver com a rua. De terra.

Com aquela terra brilhante havia muitas pedrinhas. Isso me causou dificuldades desde quando aprendi a andar. Por causa de tantas pedrinhas não conseguia manter o equilíbrio, vivia escorregando e caindo. Tenho provas disso: em uma queda, arranquei um pedaço de pele significativo do joelho, e tenho uma cicatriz notável, profunda e bem diferente da pele. Ao cair eu me arrastei por centímetros e chorei muito porque doeu.

Escorregar na terra era constante. Os solados plásticos e duros das congas azul-marinho proporcionavam um freqüente deslize. Os solados sempre manchados de lama, que fazia a gente esquecer o que era o branco das coisas. Muitos sapatos meus ficaram manchados de lama por vários anos. Ao circular por lugares mais centrais, as pessoas viviam perguntando onde morava, de onde vinha. Vivia com vergonha disso, mas, depois nem ligava. Cheguei a ter orgulho de carregar manchas de lama nos tênis. Uma bobagem. Ter dificuldades é motivo de orgulho?

Lembro-me, na adolescência, da amiga Inês, que morava um pouco mais no alto do que eu. Depois de a família perder tudo, foi morar no Jardim Brasília. Ela nunca se conformou. Nos dias de chuva, ia para a avenida, no ponto de ônibus, com dois saquinhos plásticos no pé, em volta dos sapatos, para não se sujar de lama. Pouco adiantava, pois vivia espirrando lama na roupa, nem que fossem uns pinguinhos. Sempre levávamos a terra da rua com a gente. Sempre viam terra na gente.

Rua de terra e muitos terrenos com mato. O misterioso mato, tão presente em histórias de viajantes. Tão verde e cheiroso. Dali saíam muitas coisas, muitos bichos. Ratos, cobras, baratas, cupins, formigas, grilos, louva-a-deus, borboletas, tatuzinho-bola, que invadiam as ruas e não tinham vez junto à crueldade das crianças, das pessoas que marcavam ali seu território, sua passagem.

Os carros passavam tão raramente e a rua era lugar de gente. Todo mundo andava no meio dela, com jeito de estar percorrendo um caminho... Ruas compridas, olhares perdidos em pensamentos na caminhada.
Crianças passavam a caminho da escola, centenas. Mas durante todo o dia se revezavam na ocupação da rua e ficavam horas ali brincando.
Nas férias era a tomada total da rua. Gritos de felicidade, barulhos de brincadeiras e exaltações. Toque de recolher eram o grito da mãe chamando para o banho, a janta ou a chegada do pai do trabalho.

Tínhamos alguns medos da rua: dos raios em dias de chuva, de bombinhas, de enroscar pipas nos fios, de tarados que atacavam mulheres e meninas. Das brigas, quando uma turma ou integrante de outro bairro invadiam ou passavam pelo nosso. E vice-versa. Eu nunca entendi bem por que existia essa regra. Da polícia, quando, à noite, ficávamos dentro de casa morrendo de medo ouvindo as veraneios ou camburões da Rota deslizando com motor desligado, faróis apagados, nos causando pavor.

Também não tínhamos medo: queimada, esconde-esconde, pega-pega, cabo-de-guerra, brincadeira de roda, vivo-ou-morto, passa-anel. Às vezes, durante a tarde, deitávamos na rua e ficávamos olhando as nuvens do céu e vendo as mais diversas formas. Conforme o vento, mudavam as figuras. E todos milagrosamente viam juntos, imaginavam juntos. O exercício se complicava quando o vento era veloz e a imaginação tinha que ser rápida para dar conta do movimento. Estaria aí a primeira noção de que tudo muda?

Pulamos muita corda. Tenho certeza de que minhas pernas engrossaram de tanto brincar de pular corda. A corda era sempre minha e de meus irmãos, doada e sempre reposta pelo meu pai. Ele nunca me deu uma bicicleta, mas me deu esse instrumento de muita satisfação.

“Beijo, Abraço ou Aperto de Mão”. Por causa da brincadeira, fiquei noiva aos oito anos de idade. O anel era daqueles que vinham grudados no chiclete Ping-Pong, e o meu tinha uma pedra de acrílico vermelha. Exibia-o orgulhosa, prova de meu compromisso.

Soube de menstruação, sexo, namoro e beijo com amigas da rua. Algumas coisas me chocaram, outras me deram vontade de fazer. Treinava beijar em casa, no espelho do guarda-roupa da minha mãe. Um beijo frio, no vidro.Tão diferente do meu primeiro beijo, quente, que não teve trilha sonora, como a das novelas da TV. Aliás, o silêncio estonteante da entrega. Os pés fincados na terra da rua, o ventre quente e a cabeça flutuando. Bem no meio da rua.

Depois desse beijo, vieram outros, de outros, na rua.

Crescendo, também cresceram meu olhar, minha mente e meu desejo de beijar outras bocas, uma grande vontade de vida. Em outras ruas.

De ganhar novas ruas, até avenidas. Estradas?! A minha rua ficou pequena, com pouco espaço para tudo isso.

A rua mudava, ao mesmo tempo em que eu mudava. Primeiramente, a iluminação de poste, que deu grande incrementada às brincadeiras e depois aos namoros. Depois, as grandes tubulações e buracos: a água encanada! (morria de medo de cair no poço do quintal...). Finalmente o asfalto, que selou uma nova era: a de que eu não pertencia mais àquelas ruas.

Rosa Maria Falzoni
Natural do Jardim Brasília
Zona Leste - São Paulo - Capital

O menino sem imaginação no Teatro Paulo Eiró